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Inflação perde força, mas juro continuará subindo
Índices mostram que a alta dos preços desacelerou bastante. Mesmo assim, analistas acreditam que o BC continuará elevando a taxa Selic até o fim do ano
Dois indicadores da Fundação Getulio Vargas (FGV) divulgados ontem reforçaram a tendência de desaceleração da inflação no atacado e no varejo, que já vinha sendo apontada por uma série de índices publicados nas últimas semanas. No entanto, isso não deve ser suficiente para mudar a atitude do Banco Central em relação à taxa básica de juros (Selic). Na opinião da maioria dos analistas, o Comitê de Política Monetária (Copom) vai elevar o juro básico, atualmente de 13% ao ano, em 1,75 ponto porcentual até dezembro, na tentativa de frear o avanço do consumo. A estimativa consta do relatório Focus, também divulgado ontem, elaborado pelo BC a partir da opinião de quase uma centena de bancos e consultorias.
De acordo com a FGV, o Índice de Preços ao Consumidor-Semanal (IPC-S), que acompanha as variações no varejo, caiu ao menor nível desde a terceira semana de março, fechando em 0,34% na segunda prévia de agosto, abaixo dos 0,44% apurados na primeira parcial do mês. O outro indicador divulgado ontem pela FGV sofreu um recuo ainda mais forte: o Índice Geral de Preços-10 (IGP-10), que compila resultados do atacado, varejo e construção civil, baixou para 0,38% em agosto, frente aos 2% verificados em julho. Com preços coletados entre 11 de julho e 10 de agosto, o índice atingiu o menor patamar desde julho de 2007.
Como as variações do atacado respondem por 60% do IGP-10, o índice é muito influenciado pela oscilação dos preços de commodities. Exatamente por isso, o indicador subiu com força há alguns meses e caiu agora, acompanhando as cotações de produtos negociados no mercado internacional – várias despencaram mais de 20% desde o pico atingido em junho e julho. Dos cinco produtos com maior contribuição para a desaceleração do indicador em agosto, três (soja, milho e trigo) são commodities agrícolas.
“Não vejo essas taxas tão altas ocorrendo novamente, no curto prazo”, disse o coordenador de análises econômicas da FGV, Salomão Quadros, referindo-se às altas de 1,96% e 2% registradas pelo IGP-10 em junho e julho, respectivamente. Segundo ele, o índice deve continuar em trajetória de desaceleração nos próximos meses, reduzindo ainda mais a taxa acumulada em 12 meses, que até agosto ficou em 14,42%. Por isso, o economista vê espaço para que o BC diminua o ritmo das altas da Selic. “Na época em que eles elevaram [a Selic] em 0,75 ponto porcentual [em julho], eu não vi motivo para uma elevação tão alta. É claro que eles devem continuar subindo, e há motivos para isso. Mas não há razão para outra rodada de aumento forte.”
Mas, apesar da opinião do economista e dos seguidos sinais de desaceleração da inflação, bancos e consultorias continuam acreditando que a Selic subirá 0,75 ponto na próxima reunião do Copom, nos dias 9 e 10 de setembro. O curioso é que, segundo o relatório Focus, essas mesmas instituições revisaram para baixo sua expectativa para a inflação neste ano. A projeção para o IPCA (indicador oficial do governo) recuou pela segunda semana seguida e agora é de 6,44%.
Retração natural
Para o economista Fábio Araújo, da Brain Consultoria, a inflação está recuando por dois motivos: o alívio dos preços das commodities e a “retração natural” do consumo provocada pelo próprio aumento dos preços. “A inflação subiu nos últimos meses, corroendo o poder de compra do consumidor. Que passou a consumir menos e, com isso, a pressionar menos a inflação”, disse Araújo. “O que podemos garantir é que as quedas não têm a ver com os recentes aumentos da Selic. Até porque o Banco Central não tem como agir sobre a inflação das commodities, que é importada.”
O diretor-presidente da Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo (FIA/USP), Cláudio Felisoni, defende que o BC aguarde antes de promover novas altas da taxa de juros. “Atuando de forma isolada, o Banco Central terá pouco resultado sobre a inflação, já que ela está sendo influenciada principalmente pela dinâmica internacional. O problema é que, além de fazer pouco para controlar a inflação doméstica, as altas da Selic prejudicam a atividade do varejo, que tende a desacelerar”, diz Felisoni.
Fonte: gazetadopovo.com.br
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