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O abre-e-fecha dos desmanches
Se você não leu a notícia publicada nos jornais, fique sabendo: no dia 11 de abril, a Brigada Militar encontrou um carro roubado em uma loja de peças na Avenida Sertório, na Capital. Na mesma avenida, em 9 de maio, dois veículos recém levados pelos ladrões foram localizados pela Polícia Civil em outro comércio. Menos de dois meses depois, os dois desmanches estão com os portões abertos, ofertando capôs, pára-choques e motores usados sem procedência. Ambos foram inicialmente fechados pela polícia, mas não chegaram a ser interditados.
Os dois casos recentes ilustram uma prática corriqueira no Estado. Desmanches flagrados com veículos ou peças roubadas costumam abrir as portas logo após o guincho recolher os automóveis apreendidos - ou os pedaços deles. Somente em Porto Alegre, Zero Hora constatou que pelo menos outros quatro pontos fechados nos últimos dois anos estão funcionando. A polícia diz que o fechamento de empresas irregulares é responsabilidade das prefeituras.
Os municípios, por sua vez, reclamam da falta de informações dos órgãos de segurança para poder fiscalizar. O empurra-empurra dá sobrevida aos ferros-velhos ilegais, apontados como os principais destinos de carros roubados e furtados no Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, uma lei municipal prevê a suspensão do alvará de estabalecimentos comerciais envolvidos em crimes.
- Não temos como interditar os desmanches. Agimos sobre a esfera criminal e o controle sobre o comércio é da prefeitura - diz Heliomar Franco Ataydes, titular da Delegacia de Repressão ao Roubo de Veículos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic).
Alterações na pintura da fachada foram as únicas mudanças feitas pelos dois desmanches da Capital recentemente flagrados com carros roubados. A reportagem de ZH voltou às lojas esta semana, com pretexto de comprar peças. Na Bentocar, localizada no número 9.770 da Sertório, o nome e o telefone foram cobertos com tinta verde. Os portões, no entanto, foram reabertos uma semana depois de a Polícia Civil encontrar no pátio da empresa uma caminhonete S-10 e um Brava levados pelos bandidos.
Quando os policiais chegaram, o Brava recém havia entrado no pátio. O dono do carro fora atacado pelos ladrões duas horas antes, no bairro Higienópolis. No dia do flagrante, um funcionário que trabalhava no ferro-velho fugiu ao perceber a aproximação de viaturas. O proprietário ainda não foi oficialmente identificado pela polícia, que pretende indiciá-lo por receptação.
Depois de temporada fechada, loja segue fazendo negócio
Enquanto o inquérito aguarda conclusão, a Bentocar segue oferecendo peças usadas a preços atrativos. Em meio a pára-lamas, capôs e rodas, o vendedor é ágil na abordagem ao cliente. Ele diz não ter as peças solicitadas, mas que "poderia conseguir".
- Se não for urgente, posso te arrumar para a outra semana - oferece o atendente.
Na Porto Sul, número 5.460 da Avenida Sertório, o painel luminoso ganhou um retoque na pintura esta semana. Em vermelho, letras caprichadas anunciam: Comércio de peças para veículos nacionais e importados. O telefone para contato está em destaque na fachada.
Na primeira quinzena de abril, o desmanche ficou fechado, após a BM encontrar uma caminhonete Peugeot 206 SW roubada dois dias antes na Capital. Dois homens foram presos em flagrante. Depois da temporada com portas cerradas, a loja segue fazendo negócios. É aberta de segunda a sábado, das 8h às 18h, informa um vendedor.
O dono da caminhonete encontrada na Porto Sul ficou surpreso ao saber que o desmanche havia voltado a atender. No dia do flagrante, o aposentado de 60 anos ficou estarrecido ao ver seu veículo em pedaços:
- Eu ainda não recebi o dinheiro do seguro, e os caras já estão abertos. Não tenho nem o que falar.
O flagrante
No pátio da loja de peças usadas Bentocar, na Avenida Sertório, 9.770, em Porto Alegre, agentes da Delegacia de Repressão ao Roubo de Veículos encontraram um caminhonete S-10 e um Brava roubados na Capital. Os dois veículos ainda não haviam sido desmontados. Um funcionário que estava no local fugiu ao ver as viaturas da Polícia Civil. O proprietário não apareceu e até hoje não foi identificado. Ele deverá ser indiciado por receptação na conclusão do inquérito. Na última terça-feira, ZH esteve na loja, que funciona normalmente.
O outro flagrante
O 20º Batalhão de Polícia Militar encontrou uma caminhonete Peugeot 206 SW no pátio da Porto Sul, na Avenida Sertório, 5.460. O proprietário do veículo, assaltado dois dias antes, foi chamado e reconheceu as peças da caminhonete. Dois homens que estavam no local foram presos em flagrante. Um deles segue preso. O estabelecimento foi temporariamente fechado pela BM, mas reaberto na semana seguinte.
Fonte: Zero Hora
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