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Quando o investimento testa a paciência da população


Trocar o equipamento que permite um avião pousar durante neblina no momento em que o fenômeno é mais freqüente - como está ocorrendo com a troca do sistema nevoeiro do aeroporto Salgado Filho - expôs, mais uma vez, como gestores públicos pecam quando o assunto é planejar. Está incrustada na administração pública brasileira a rotina de prometer prazo, não cumprir e estender o trabalho gerando ainda mais transtorno à população.



Os exemplos se multiplicam. Foi na prática que o então jovem engenheiro Mauri Adriano Panitz aprendeu o quanto uma obra mal planejada prejudica as pessoas, no início da década de 70. Trabalhando no extinto Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), havia autorizado uma intervenção na BR-116, em Canoas, que estava sendo realizada em horário útil. Mas a visita de um agente da Polícia Rodoviária Federal (PRF) mudou seus conceitos.



- Doutor, o senhor não sabe a confusão que as obras estão causando lá na BR. Venha comigo para o senhor ver - ouviu.



Panitz seguiu o policial até a estrada. O que viu o deixou perplexo: um congestionamento até Esteio. Ali o futuro especialista em engenharia de trânsito ganhava uma lição para toda a vida.



- Eu era jovem, recém formado. Não tinha idéia do que uma obra impactava, talvez estivesse lá dentro da minha sala, no ar-condicionado. Imediatamente chamei a empresa e tratamos de passar o trabalho para a noite, ligando gerador para iluminar o local - afirma.



Intervenções em rodovias em pleno feriado



Nas décadas seguintes, ele lembrou daquela lição diversas vezes ao deparar com serviços sendo realizados em vias nos horários de movimento. Executar em um momento inapropriado foi o que gerou os recentes transtornos no aeroporto da Capital, com a troca do radar que permite pousos com neblina no Salgado Filho. Para o trabalho, foi preciso deixar o Salgado Filho sem a antena na época do ano em que ela é mais essencial. A Infraero garante que o planejamento era realizar o trabalho até março. O que houve, segundo o órgão de aviação, foi apenas um atraso.



Não é curta a lista de obras que, por causa do ritmo arrastado, causaram mais transtorno do que o natural. Na Capital, uma inauguração neste ano foi tão festejada pelo fim dos prejuízos como pelo benefício que traria à cidade: o Conduto Forçado Álvaro Chaves-Goethe. A obra subterrânea para acabar com alagamentos em nove bairros levou dois anos e 10 meses, quase um ano a mais do que a previsão inicial. Quem teve prejudicado o acesso à residência ou viu os clientes sumirem chegou ao limite da paciência.



Ainda na Capital, na Zona Norte, o corredor de ônibus da Avenida Baltazar Oliveira Garcia ganhou a promessa de ser concluído neste ano. Quem mora e trabalha na região espera com ansiedade. Já faz mais de dois anos que os primeiros operários chegaram à via. Desde então, paralisações constantes e marcha lenta no serviço prolongaram a tranqueira e aumentaram o tempo de viagem de motoristas e passageiros. O governo estadual, responsável pela obra, garante que agora entrou com recursos próprios para garantir a conclusão, sem esperar pelos recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que representam 75% dos R$ 34 milhões para a construção.



Mais recentemente, duas obras em rodovias foram realizadas em dias que causaram confusão. No sábado do feriado de Tiradentes, um recapeamento na BR-116 gerou um congestionamento quilométrico em Canoas, causando mal-estar entre a PRF e a representação regional do Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes (Dnit). O departamento explicou que o trabalho deveria ter sido somente à tarde.



Para especialista, previsão do tempo também deve contar



Em outro feriado, de Corpus Christi, a ida ao Litoral ficou comprometida com serviço de ampliação da freeway (BR-290) entre os kms 53 e 38, no sentido Capital-Osório, em Glorinha. A lentidão do trecho resultou até em engavetamento de veículos. Para justificar a escolha inadequada, a Concepa explicou que o estágio da obra e a obrigação contratual impediram adiar o alargamento.



- Essa questão do planejamento de uma obra pública precisa avançar. Precisamos estudar mais isso. Deixamos o barco correr e ficamos dependentes dos administradores - afirma Luis Roque Klering, professor de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).



Ele explica que o planejamento de empresas privadas deveria servir de exemplo para os órgãos públicos na hora de fixar o cronograma de realização de uma intervenção. No caso delas, se prevê tudo o que pode ocorrer em cada dia, tudo precisa se encaixar para funcionar. Caso contrário, fluxos de pessoas ou de produtos ficam retidos, ocasionando grandes prejuízos. A previsão climática deveria entrar nesse processo.



- Antes de começar uma obra, se deve saber quantos dias do ano chove naquela cidade. Hoje, já previsões e estimativas disso disponíveis. Isso não pode ser um fator de surpresa justificativa para explicar atraso nos trabalhos - diz o professor Klering.


Fonte: Zero Hora



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